211 - Escolas Filosóficas e Influências na Maçonaria: o Racionalismo (4)


Irmão José Ronaldo Viega Alves

“1. O Maçom deve lutar e tudo fazer contra a ignorância. 2. O conhecimento se baseia no livre exame. 3. O livre exame há de ser próprio e legítimo. 4. O livre exame se baseia na razão crítica. 5. A razão não aceitará unicamente o racional, mas também aquilo que for razoável. 6. A intuição, que se verifica estar na base da razão, serve também para completá-la. 7. É necessário que se lute tanto contra a infantilidade das crenças irracionais, como contra a presunção simplista de um racionalista estreito. A educação e o progresso devem caminhar por essa linha do mais puro equilíbrio.”

Francisco Espinar Lafuente, maçom e filósofo espanhol, citado por Raimundo Rodrigues, p. 116-117, 2004.

Introdução

Na continuação da proposta de compor um conjunto de artigos que aborde o essencial das principais correntes filosóficas que influenciaram a doutrina maçônica, agora é a vez do Racionalismo.

Sabemos que a Maçonaria não impõe limites à livre investigação da verdade. Tem por finalidade combater a ignorância, esclarecer os homens e prepará-los para sua emancipação progressiva e pacífica. Não aceita dogmas ou sectarismos e defende princípios voltados ao cultivo da moral, da ética e das virtudes, que devem estar sob a orientação da razão.

Para compreender como o Racionalismo influenciou a Maçonaria, é necessário lembrar que o Racionalismo moderno nasceu com René Descartes (1596-1650), antes do surgimento da Maçonaria Especulativa. Muitas ideias desenvolvidas nesse período serviram de base para correntes posteriores, como o Iluminismo e o Deísmo, que dominaram as discussões intelectuais da época e contribuíram para o ambiente em que se estruturou a Maçonaria Especulativa.

O Racionalismo na Maçonaria é, portanto, uma linha de pensamento que recebeu influência das ideias iluministas. Em termos sucintos, pode ser definido como a utilização da razão e da lógica na condução do pensamento e na tomada de decisões.

Para alguns religiosos, a valorização da razão e da experiência pode parecer incompatível com a suficiência da fé. Entretanto, como sabemos, a Maçonaria não é uma religião: não possui teologia própria, caminho de salvação ou dogmas de fé. Seus membros são, em sua maioria, religiosos, e muitas tradições maçônicas exigem a crença em um Ser Superior, denominado Grande Arquiteto do Universo.

Se a Maçonaria recebeu, ao longo de sua história, influências filosóficas, religiosas e científicas, é importante conhecê-las em suas diversas dimensões. Somente assim poderemos compreender melhor a própria Ordem.

A citação que abre este artigo destaca a importância da racionalidade, mas também alerta para os perigos dos extremos: tanto as crenças irracionais quanto o racionalismo estreito. Essa reflexão sugere que a conciliação e o equilíbrio são fundamentais, especialmente em nossos dias.

A Maçonaria Especulativa surgiu oficialmente em um período no qual as ideias racionalistas se multiplicavam. O mundo passava por transformações profundas, e o Iluminismo questionava muitas crenças e superstições que haviam marcado os séculos anteriores. A Maçonaria não poderia permanecer imune a essas influências.

O que é mesmo o Racionalismo?

Em consulta a dois dicionários de Filosofia, encontramos as seguintes definições:

“Doutrina que estabelece o primado da razão. [...] Concepção ou doutrina segundo a qual a razão humana poderia fazer-nos aceder à verdade. [...] Doutrina segundo a qual o espírito humano possuiria os princípios ou conhecimentos a priori, independentes da experiência, que comandariam o conhecimento.”

Jacqueline Russ, Dicionário de Filosofia, 1994, p. 243.

“Teoria de que a razão provê o melhor ou o único caminho para a verdade.”

C. Stephen Evans, Dicionário de Apologética e Filosofia da Religião, 2004, p. 116.

A doutrina racionalista inclui vários filósofos, entre os quais merecem destaque Platão, Descartes, Leibniz, Espinosa, Kant e Hegel.

Na sequência, veremos alguns pensadores e suas contribuições para o desenvolvimento das ideias racionalistas, desde a Grécia Antiga.

Um pouco da história do pensamento racionalista

Parmênides, Sócrates e Platão estão entre os filósofos da Antiguidade cujas ideias contribuíram para as discussões que posteriormente seriam associadas ao Racionalismo.

Parmênides considerava que a percepção dos sentidos pode conduzir ao erro. Para ele, os sentidos não seriam suficientes para revelar a verdadeira realidade. Em síntese, colocava a razão como caminho privilegiado para alcançar a verdade.

Platão, em diversos diálogos, também enfatizou a importância da razão para o conhecimento. Desenvolveu ideias relacionadas à existência de uma realidade inteligível, expressa em sua teoria das Ideias. Sua filosofia, entretanto, não se limita a uma concepção puramente racional, pois também aborda a contemplação e outras formas de aproximação do real.

Sócrates, por sua vez, relacionava o conhecimento do bem à conduta moral. A capacidade de distinguir o certo do errado estaria vinculada à razão e ao exame crítico das próprias convicções (Girardi, 2008, p. 527).

Embora a Maçonaria tenha incorporado símbolos, alegorias e conceitos geométricos associados à Antiguidade grega, inclusive a Pitágoras e Platão, sua estruturação institucional como Maçonaria Especulativa ocorreu na Europa, entre o final do século XVII e o início do século XVIII.

Nos séculos XVII e XVIII, o Racionalismo ganhou formulação sistemática com filósofos como Descartes, Spinoza e Leibniz. Suas ideias contribuíram para transformar a maneira como se discutiam o conhecimento, a realidade e os fundamentos da existência.

Durante o século XVIII, as descobertas científicas fortaleceram a confiança na razão e ampliaram o papel da Ciência. Em alguns círculos intelectuais, essa tendência veio acompanhada de críticas à fé religiosa. Outros pensadores, entretanto, sustentavam que a razão também poderia ajudar na compreensão da fé, por ser considerada um atributo concedido por Deus.

A razão também foi associada a diferentes correntes intelectuais, por vezes utilizada para criticar crenças e tradições fundamentalistas. O Racionalismo compartilhou pontos importantes com o Iluminismo, movimento cultural, intelectual e filosófico que procurou compreender e enfrentar, por meio da razão, problemas fundamentais da sociedade humana.

Outros filósofos e o Racionalismo

Para compreender o Racionalismo, é importante considerar também o Empirismo, uma corrente filosófica que atribui à experiência um papel fundamental na formação do conhecimento.

Enquanto o Racionalismo enfatiza a razão como instrumento de conhecimento, o Empirismo destaca a experiência sensível e a observação. Essas correntes são frequentemente apresentadas como opostas, embora a história da Filosofia revele relações mais complexas entre elas.

Na perspectiva de pensadores racionalistas, como Descartes e Spinoza, a razão exerce papel decisivo na organização e interpretação da experiência. O conhecimento não depende apenas de receber informações pelos sentidos: exige também reflexão e elaboração intelectual.

A influência do Racionalismo na Maçonaria

O Irmão Raimundo Rodrigues, estudioso da Filosofia Maçônica, observa que, embora a Maçonaria possua uma orientação marcadamente racional, ela não descarta o Empirismo.

“Para o empirismo o que vale é a experiência; daí a razão por que a participação é sumamente importante para que o Maçom busque o aperfeiçoamento constante do intelecto e do espírito. Enquanto a inteligência busca o conhecimento da doutrina maçônica perscrutando a filosofia que ela encerra, a experiência faz com que o Obreiro aprimore sua exegese na melhoria cada vez maior do entendimento daquilo que os Símbolos e as alegorias destilam: seus mais variados significados doutrinários.”

Raimundo Rodrigues, A Maçonaria e o Hábito da Virtude, 2004, p. 112.

Ao longo de sua história, o pensamento racionalista desenvolveu diferentes vertentes, entre elas o Racionalismo Crítico, associado a Kant, e outras correntes que procuraram relacionar razão, espiritualidade e ciência.

Ao analisar três importantes tradições maçônicas — o Rito Inglês de Emulação, o Rito Escocês e o Rito Francês ou Moderno —, Raimundo Rodrigues identifica diferentes ênfases: a corrente praticista no primeiro, a esotérica no segundo e a racionalista no terceiro.

O autor ressalta, contudo, que essas três correntes estão presentes nos diferentes Ritos, embora uma delas possa predominar em cada tradição. Assim, a diversidade de ênfases não significa necessariamente uma ruptura na doutrina maçônica (Rodrigues, 2004, p. 116).

O Rito Moderno e o Racionalismo

Em 1877, o Grande Oriente da França promoveu uma mudança importante em sua orientação institucional, retirando a obrigatoriedade de determinadas referências religiosas dos trabalhos maçônicos. A reforma ficou associada à liberdade de consciência e ao afastamento de exigências dogmáticas.

O objetivo era evitar que a Maçonaria se tornasse instrumento de sectarismo religioso. A mudança não precisava ser interpretada como uma afirmação da inexistência de Deus, mas como uma posição que reconhecia a liberdade de consciência e a impossibilidade de impor uma crença religiosa como condição universal.

O Irmão Frederico Guilherme Costa apresenta a seguinte interpretação:

“O Rito Moderno não pergunta ao candidato à Iniciação se ele é ateu, teísta ou se acredita em um ser Supremo. Seu compromisso, a partir da reforma, é com o agnosticismo e não tem por que negar esta condição racionalista. O racionalismo é característica do pensamento de Rousseau, cujo Contrato Social procura fundar a Sociedade e o Estado em bases puramente racionais.”

Frederico Guilherme Costa, artigo “Rito Moderno”, 2010, p. 276.

Essa interpretação destaca uma característica importante do Rito Moderno: a valorização da liberdade de pensamento e da consciência individual, sem que a divergência religiosa se transforme em obstáculo ao convívio fraterno.

Considerações finais

A Maçonaria Moderna ou Especulativa consolidou-se no século XVIII, em um contexto marcado pelo Iluminismo, pelo Racionalismo e pela Revolução Científica. As transformações intelectuais daquele período estimularam novas maneiras de compreender o mundo, a sociedade e a condição humana.

A Maçonaria Especulativa, organizada institucionalmente a partir de 1717, desenvolveu-se em um ambiente intelectual influenciado por pensadores como Descartes, John Locke, Isaac Newton e Baruch Spinoza. A razão humana passou a ocupar lugar central nos debates sobre o conhecimento e a moral, ao lado de questionamentos sobre a autoridade das tradições.

Isso não significa que todas as formas de misticismo tenham desaparecido da Maçonaria. Seus símbolos, alegorias e práticas continuam a comportar diferentes interpretações, conforme os Ritos e as tradições. A Ordem não pode ser compreendida exclusivamente como uma escola de mistérios, tampouco reduzida a uma associação fraterna sem dimensão filosófica.

O Racionalismo, entretanto, não deve ser adotado de maneira extremada. A razão é indispensável ao exame crítico, mas sua utilização exige consciência de seus limites e abertura ao diálogo com outras formas de conhecimento.

A Maçonaria recebeu influências racionalistas sem necessariamente abandonar a riqueza simbólica e as interpretações esotéricas presentes em seus ensinamentos. O equilíbrio entre reflexão racional, experiência e interpretação dos símbolos constitui uma das possibilidades de aprofundamento do pensamento maçônico.

Parafraseando o estudioso Charles Boucher, a Maçonaria pode ser entendida como uma verdadeira escola de iniciação, e não apenas como uma associação fraterna. Para cumprir sua missão de combater a ignorância, precisa estimular a capacidade humana de compreender, julgar, estabelecer relações e examinar criticamente as próprias convicções.

A razão, nesse sentido, não deve ser instrumento de arrogância ou intolerância, mas um caminho para o aperfeiçoamento intelectual e moral, em harmonia com a liberdade de consciência e o respeito ao pensamento alheio.

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Consultas bibliográficas

  • BATTAL, Moisés Mussa. Lições de Filosofia Geral e Maçônica. Editora A Gazeta Maçônica, 1990.
  • BOUCHER, Charles. A Simbólica Maçônica. Editora Pensamento.
  • CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Volume 5. Hagnos Editora, 9ª edição, 2008.
  • EVANS, C. Stephen. Dicionário de Apologética e Filosofia da Religião. Editora Vida, 2004.
  • GIRARDI, João Ivo. Do Meio-dia à Meia-noite — Vade-Mécum Maçônico. Nova Letra Gráfica e Editora Ltda., 2ª edição, 2008.
  • O PRUMO 1970-2010. Coletânea de Artigos — Grau 1, Volume 1. GOSC, 2010. Artigo “Rito Moderno”, de Frederico Guilherme Costa.
  • RODRIGUES, Raimundo. A Maçonaria e o Hábito da Virtude. Editora Maçônica A Trolha Ltda., 1ª edição, 2004.
  • RUSS, Jacqueline. Dicionário de Filosofia. Editora Scipione, 1994.

REVISTA O MALHETE

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