A
história da Maçonaria na Espanha durante o século XX é também a história de uma
perseguição política e ideológica que marcou profundamente a sociedade
espanhola. Sob o comando do general Francisco Franco, o regime instaurado após
a Guerra Civil Espanhola transformou a Ordem Maçônica em um dos principais
alvos de sua política repressiva, apresentando seus integrantes como
adversários da religião, da unidade nacional e dos valores defendidos pelo
governo.
A
hostilidade de Franco contra a Maçonaria não se limitou às diferenças
ideológicas. Ela se converteu em política de Estado, com leis específicas,
investigações, processos judiciais, prisões, confiscos de bens, execuções e
exílio. Décadas depois, o caso espanhol permanece como um exemplo de como o
autoritarismo pode utilizar a propaganda e o preconceito para justificar a
perseguição a grupos considerados inconvenientes ao poder.
A
construção de um inimigo
Francisco
Franco chegou ao poder após a Guerra Civil Espanhola, conflito que se estendeu
de 1936 a 1939 e terminou com a derrota dos republicanos. O novo regime
consolidou uma estrutura autoritária, fortemente associada ao nacionalismo
espanhol e ao catolicismo tradicional, restringindo a liberdade política, a
organização sindical e a manifestação de ideias contrárias ao governo.
Nesse
contexto, a Maçonaria passou a ser apresentada como uma força conspiratória
responsável pelos problemas da Espanha. A propaganda franquista recorria à
expressão “conlúio judaico-maçônico”, uma fórmula que combinava o antimaçonismo
com o antissemitismo e procurava atribuir a grupos distintos a responsabilidade
por transformações políticas e sociais que o regime rejeitava.
A
acusação era conveniente: em vez de reconhecer a complexidade da sociedade
espanhola e os conflitos que dividiam o país, o governo construía a imagem de
um inimigo oculto, supostamente responsável pela decadência nacional.
A
Maçonaria, com sua tradição de reflexão filosófica, fraternidade e valorização
do aperfeiçoamento humano, tornou-se alvo privilegiado dessa narrativa. Sua
diversidade de integrantes e suas ligações históricas com movimentos liberais e
republicanos contribuíram para que fosse associada, de maneira generalizada, a
todas as forças políticas combatidas pelo franquismo.
É
importante observar, entretanto, que a Maçonaria não constituía um partido
político único, nem seus membros compartilhavam necessariamente as mesmas
posições. A diversidade de pensamento, característica de diferentes correntes
maçônicas, não impediu que o regime tratasse a Ordem como se fosse uma
organização homogênea dedicada à conspiração.
A
repressão transformada em lei
A
perseguição não ficou restrita aos discursos oficiais. Em 1940, o regime
promulgou a Lei para a Repressão da Maçonaria e do Comunismo, instrumento
jurídico destinado a perseguir pessoas classificadas como inimigas da nova
ordem política.
A
legislação permitia enquadrar maçons e outras pessoas consideradas adversárias
do regime, submetendo-as a investigações e processos. As consequências podiam
incluir penas de prisão, perda de direitos, confisco patrimonial e outras
formas de punição. No ambiente de violência política que se seguiu à Guerra
Civil, muitos perseguidos também foram executados ou obrigados a abandonar o
país.
O
artigo de Juan G. Bedoya, publicado no portal Masonería en Suecia,
destaca a dimensão desproporcional da repressão. Segundo os números
apresentados pelo autor, a Maçonaria espanhola contava com aproximadamente
cinco mil a seis mil integrantes em 1936, enquanto a perseguição teria dado
origem a quase 18 mil processos.
A
diferença entre esses números evidencia a amplitude do aparato repressivo e a
necessidade de compreender que a perseguição ultrapassou a simples
identificação dos membros ativos da Ordem. Para o regime, a suspeita, os
vínculos anteriores e as acusações políticas podiam ser suficientes para
colocar uma pessoa sob investigação.
O
resultado foi uma ruptura profunda na vida maçônica espanhola. Lojas foram
fechadas, documentos e patrimônios foram atingidos, famílias sofreram as
consequências da repressão e numerosos maçons precisaram reconstruir suas vidas
no exterior.
Por
que Franco odiava tanto os maçons?
A
pergunta permanece relevante para os estudiosos da história espanhola. Não
existe uma explicação única e definitivamente comprovada para a intensidade da
hostilidade pessoal de Franco contra a Maçonaria.
O
texto de Bedoya menciona hipóteses relacionadas à história familiar do ditador,
incluindo a presença de maçons entre seus parentes, e levanta a possibilidade
de uma eventual rejeição por parte da Ordem. Essas interpretações, porém, não
devem ser tratadas como fatos comprovados.
Uma
explicação mais consistente precisa considerar o ambiente político e ideológico
no qual o franquismo se desenvolveu.
A
Maçonaria reunia pessoas de diferentes origens e convicções, estimulava a
reflexão individual e possuía uma tradição histórica de participação em debates
sobre liberdade de consciência, educação, cidadania e organização da sociedade.
Em determinados contextos, integrantes da Ordem também participaram de
movimentos liberais e republicanos.
Essas
características entravam em choque com um regime que procurava concentrar o
poder, limitar o pluralismo político e estabelecer uma visão oficial da
identidade nacional.
A
associação entre Maçonaria, liberalismo, republicanismo e anticlericalismo
serviu, assim, como justificativa ideológica para a repressão. Em vez de
distinguir indivíduos, posições políticas e responsabilidades concretas, o
governo preferiu atribuir à instituição uma culpa coletiva.
A
perseguição também se alimentava de uma tradição antimaçônica anterior ao
franquismo, na qual a Ordem era acusada de agir secretamente para destruir a
religião ou controlar os acontecimentos políticos. O regime apropriou-se desses
preconceitos e os transformou em instrumentos de mobilização e controle social.
O
episódio que revelou a contradição do regime
Um
dos relatos reproduzidos por Bedoya ilustra as contradições da política de
Franco.
Segundo
a narrativa, durante uma reunião realizada no Palácio de El Pardo, em 1958,
representantes norte-americanos conversaram com o ditador sobre uma possível
visita do presidente Dwight D. Eisenhower à Espanha.
Franco
teria insistido na necessidade de combater o comunismo e eliminar a Maçonaria.
Um dos senadores presentes, identificado no relato como maçom, teria lembrado
ao governante que ele próprio e outros integrantes da delegação pertenciam a
grupos que, na Espanha franquista, eram alvo de hostilidade. O militar Eugene
Vidal também teria declarado sua condição maçônica.
O
episódio, transmitido pelo relato de Gore Vidal, filho de Eugene Vidal, expõe
uma contradição importante: o regime buscava aproximação com os Estados Unidos
em plena Guerra Fria, mas mantinha internamente uma política de repressão
incompatível com as liberdades desfrutadas por representantes de uma democracia
ocidental.
A
aproximação diplomática com Washington tornou-se parte do processo de
reconhecimento internacional do governo espanhol. Em 1959, Eisenhower visitou a
Espanha, reforçando a aproximação estratégica entre os dois países.
A
mudança no cenário internacional, contudo, não significou o fim da perseguição
aos maçons. O antimaçonismo continuou presente na estrutura ideológica do
franquismo.
O
preço humano da intolerância
A
perseguição à Maçonaria não pode ser compreendida apenas como um conflito entre
o Estado e uma organização fraternal. Ela atingiu pessoas concretas, com
profissões, famílias, projetos e convicções.
O
artigo de Bedoya recorda nomes de juristas, políticos e intelectuais que
sofreram as consequências da repressão franquista, entre eles Victoria Kent,
Manuel Azaña, Niceto Alcalá-Zamora e outros personagens da vida pública
espanhola.
Nem
todos os perseguidos tiveram o mesmo destino, e as trajetórias individuais
exigem análise histórica cuidadosa. Houve mortos, presos, exilados e pessoas
impedidas de retomar suas atividades profissionais. Em muitos casos, o
afastamento do país significou a perda das condições necessárias para
reconstruir a vida familiar e social.
A
violência também produziu consequências institucionais duradouras. Com a
destruição das lojas e a dispersão de seus integrantes, a Maçonaria espanhola
perdeu estruturas, arquivos e continuidade organizacional. O exílio tornou-se,
para muitos, a única possibilidade de preservar suas convicções e permanecer em
atividade.
A
repressão deixou, portanto, marcas que ultrapassaram o período imediato da
ditadura. Recuperar essa memória significa reconhecer que a intolerância
política pode destruir comunidades e comprometer a transmissão de
conhecimentos, tradições e experiências entre gerações.
A
liberdade não foi restabelecida imediatamente
Francisco
Franco morreu em novembro de 1975. A Espanha iniciou então uma transição
política que conduziria à democracia constitucional, mas a recuperação das
liberdades ocorreu de maneira gradual e enfrentou resistências.
A
Maçonaria também precisou lutar pelo reconhecimento jurídico. Conforme relata
Bedoya, o pedido de registro da organização foi inicialmente recusado pelas
autoridades, obrigando seus representantes a recorrer à Justiça.
Em
maio de 1979, a Audiência Nacional espanhola decidiu favoravelmente à inscrição
da Maçonaria no registro de associações, permitindo que a instituição
recuperasse sua condição legal.
O
episódio demonstra que a queda de um regime autoritário não elimina
automaticamente os preconceitos, as práticas administrativas discriminatórias
ou os obstáculos construídos ao longo de décadas. A restauração das liberdades
exige instituições capazes de assegurar direitos sem discriminação e de
corrigir injustiças herdadas do passado.
A
reconstrução da Maçonaria espanhola também esteve relacionada ao esforço de
recuperar sua memória histórica, restabelecer vínculos internacionais e tornar
novamente possível o funcionamento regular das lojas.
Memória
histórica e responsabilidade democrática
A
história da perseguição franquista permite uma reflexão que vai além das
fronteiras da Espanha. Sempre que um governo transforma um grupo social em
inimigo absoluto, atribuindo-lhe todos os males da nação, abre-se espaço para a
desumanização e para a supressão de direitos.
A
linguagem conspiratória tem um papel importante nesse processo. Ao apresentar
adversários como agentes secretos de uma ameaça permanente, o poder procura
justificar medidas excepcionais e afastar a sociedade de uma avaliação racional
dos fatos.
No
caso da Maçonaria, o mito do suposto conluio judaico-maçônico serviu para
alimentar suspeitas, legitimar punições e dificultar o reconhecimento da
diversidade de opiniões existentes dentro da própria Ordem.
Preservar
essa memória não significa afirmar que todas as instituições ou todos os maçons
estejam acima de críticas. Em uma sociedade democrática, organizações e
indivíduos podem e devem ser avaliados por suas ações concretas. O que não se
pode admitir é que acusações generalizadas substituam provas, que a diferença
de pensamento seja tratada como crime ou que a liberdade de associação seja
negada por razões ideológicas.
A
memória histórica exige distinguir fatos documentados, interpretações dos
pesquisadores e relatos que ainda necessitam de confirmação. Essa postura é
essencial para que a lembrança das vítimas não seja transformada em nova
ferramenta de propaganda.
A
lição que permanece
Francisco
Franco encerrou sua trajetória política em 1975, mas as consequências de seu
regime continuaram a influenciar a sociedade espanhola por muitos anos. A
Maçonaria, considerada por sua ditadura uma inimiga a ser eliminada, sobreviveu
à repressão e retomou suas atividades legais.
Sua
história durante o franquismo é um testemunho dos riscos que surgem quando o
poder político tenta controlar o pensamento, restringir a liberdade de
consciência e impor uma única interpretação legítima da sociedade.
Para
a Maçonaria contemporânea, recordar esse passado é reafirmar a importância da
tolerância, do diálogo e do respeito às diferenças. Para a sociedade em geral,
é reconhecer que nenhuma organização deve ser condenada por preconceitos
coletivos e que a liberdade de pensamento precisa ser protegida mesmo quando as
ideias de determinados grupos desagradam aos governantes.
A
perseguição sofrida pelos maçons espanhóis deixa uma advertência permanente:
regimes autoritários podem destruir templos, dispersar fraternidades e
silenciar vozes, mas não conseguem apagar indefinidamente a necessidade humana
de liberdade e dignidade.
A
memória dos perseguidos não pertence apenas à Maçonaria. Ela faz parte da
história da luta pela liberdade de consciência, pelo pluralismo e pela
democracia.
Fonte
de referência: Juan G. Bedoya, ¿Por qué Franco odió tanto a los masones?,
publicado no portal Masonería en Suecia.


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