211 - Franco e a Perseguição à Maçonaria: o ódio de uma ditadura à liberdade de pensamento

 

A história da Maçonaria na Espanha durante o século XX é também a história de uma perseguição política e ideológica que marcou profundamente a sociedade espanhola. Sob o comando do general Francisco Franco, o regime instaurado após a Guerra Civil Espanhola transformou a Ordem Maçônica em um dos principais alvos de sua política repressiva, apresentando seus integrantes como adversários da religião, da unidade nacional e dos valores defendidos pelo governo.

A hostilidade de Franco contra a Maçonaria não se limitou às diferenças ideológicas. Ela se converteu em política de Estado, com leis específicas, investigações, processos judiciais, prisões, confiscos de bens, execuções e exílio. Décadas depois, o caso espanhol permanece como um exemplo de como o autoritarismo pode utilizar a propaganda e o preconceito para justificar a perseguição a grupos considerados inconvenientes ao poder.

A construção de um inimigo

Francisco Franco chegou ao poder após a Guerra Civil Espanhola, conflito que se estendeu de 1936 a 1939 e terminou com a derrota dos republicanos. O novo regime consolidou uma estrutura autoritária, fortemente associada ao nacionalismo espanhol e ao catolicismo tradicional, restringindo a liberdade política, a organização sindical e a manifestação de ideias contrárias ao governo.

Nesse contexto, a Maçonaria passou a ser apresentada como uma força conspiratória responsável pelos problemas da Espanha. A propaganda franquista recorria à expressão “conlúio judaico-maçônico”, uma fórmula que combinava o antimaçonismo com o antissemitismo e procurava atribuir a grupos distintos a responsabilidade por transformações políticas e sociais que o regime rejeitava.

A acusação era conveniente: em vez de reconhecer a complexidade da sociedade espanhola e os conflitos que dividiam o país, o governo construía a imagem de um inimigo oculto, supostamente responsável pela decadência nacional.

A Maçonaria, com sua tradição de reflexão filosófica, fraternidade e valorização do aperfeiçoamento humano, tornou-se alvo privilegiado dessa narrativa. Sua diversidade de integrantes e suas ligações históricas com movimentos liberais e republicanos contribuíram para que fosse associada, de maneira generalizada, a todas as forças políticas combatidas pelo franquismo.

É importante observar, entretanto, que a Maçonaria não constituía um partido político único, nem seus membros compartilhavam necessariamente as mesmas posições. A diversidade de pensamento, característica de diferentes correntes maçônicas, não impediu que o regime tratasse a Ordem como se fosse uma organização homogênea dedicada à conspiração.

A repressão transformada em lei

A perseguição não ficou restrita aos discursos oficiais. Em 1940, o regime promulgou a Lei para a Repressão da Maçonaria e do Comunismo, instrumento jurídico destinado a perseguir pessoas classificadas como inimigas da nova ordem política.

A legislação permitia enquadrar maçons e outras pessoas consideradas adversárias do regime, submetendo-as a investigações e processos. As consequências podiam incluir penas de prisão, perda de direitos, confisco patrimonial e outras formas de punição. No ambiente de violência política que se seguiu à Guerra Civil, muitos perseguidos também foram executados ou obrigados a abandonar o país.

O artigo de Juan G. Bedoya, publicado no portal Masonería en Suecia, destaca a dimensão desproporcional da repressão. Segundo os números apresentados pelo autor, a Maçonaria espanhola contava com aproximadamente cinco mil a seis mil integrantes em 1936, enquanto a perseguição teria dado origem a quase 18 mil processos.

A diferença entre esses números evidencia a amplitude do aparato repressivo e a necessidade de compreender que a perseguição ultrapassou a simples identificação dos membros ativos da Ordem. Para o regime, a suspeita, os vínculos anteriores e as acusações políticas podiam ser suficientes para colocar uma pessoa sob investigação.

O resultado foi uma ruptura profunda na vida maçônica espanhola. Lojas foram fechadas, documentos e patrimônios foram atingidos, famílias sofreram as consequências da repressão e numerosos maçons precisaram reconstruir suas vidas no exterior.

Por que Franco odiava tanto os maçons?

A pergunta permanece relevante para os estudiosos da história espanhola. Não existe uma explicação única e definitivamente comprovada para a intensidade da hostilidade pessoal de Franco contra a Maçonaria.

O texto de Bedoya menciona hipóteses relacionadas à história familiar do ditador, incluindo a presença de maçons entre seus parentes, e levanta a possibilidade de uma eventual rejeição por parte da Ordem. Essas interpretações, porém, não devem ser tratadas como fatos comprovados.

Uma explicação mais consistente precisa considerar o ambiente político e ideológico no qual o franquismo se desenvolveu.

A Maçonaria reunia pessoas de diferentes origens e convicções, estimulava a reflexão individual e possuía uma tradição histórica de participação em debates sobre liberdade de consciência, educação, cidadania e organização da sociedade. Em determinados contextos, integrantes da Ordem também participaram de movimentos liberais e republicanos.

Essas características entravam em choque com um regime que procurava concentrar o poder, limitar o pluralismo político e estabelecer uma visão oficial da identidade nacional.

A associação entre Maçonaria, liberalismo, republicanismo e anticlericalismo serviu, assim, como justificativa ideológica para a repressão. Em vez de distinguir indivíduos, posições políticas e responsabilidades concretas, o governo preferiu atribuir à instituição uma culpa coletiva.

A perseguição também se alimentava de uma tradição antimaçônica anterior ao franquismo, na qual a Ordem era acusada de agir secretamente para destruir a religião ou controlar os acontecimentos políticos. O regime apropriou-se desses preconceitos e os transformou em instrumentos de mobilização e controle social.

O episódio que revelou a contradição do regime

Um dos relatos reproduzidos por Bedoya ilustra as contradições da política de Franco.

Segundo a narrativa, durante uma reunião realizada no Palácio de El Pardo, em 1958, representantes norte-americanos conversaram com o ditador sobre uma possível visita do presidente Dwight D. Eisenhower à Espanha.

Franco teria insistido na necessidade de combater o comunismo e eliminar a Maçonaria. Um dos senadores presentes, identificado no relato como maçom, teria lembrado ao governante que ele próprio e outros integrantes da delegação pertenciam a grupos que, na Espanha franquista, eram alvo de hostilidade. O militar Eugene Vidal também teria declarado sua condição maçônica.

O episódio, transmitido pelo relato de Gore Vidal, filho de Eugene Vidal, expõe uma contradição importante: o regime buscava aproximação com os Estados Unidos em plena Guerra Fria, mas mantinha internamente uma política de repressão incompatível com as liberdades desfrutadas por representantes de uma democracia ocidental.

A aproximação diplomática com Washington tornou-se parte do processo de reconhecimento internacional do governo espanhol. Em 1959, Eisenhower visitou a Espanha, reforçando a aproximação estratégica entre os dois países.

A mudança no cenário internacional, contudo, não significou o fim da perseguição aos maçons. O antimaçonismo continuou presente na estrutura ideológica do franquismo.

O preço humano da intolerância

A perseguição à Maçonaria não pode ser compreendida apenas como um conflito entre o Estado e uma organização fraternal. Ela atingiu pessoas concretas, com profissões, famílias, projetos e convicções.

O artigo de Bedoya recorda nomes de juristas, políticos e intelectuais que sofreram as consequências da repressão franquista, entre eles Victoria Kent, Manuel Azaña, Niceto Alcalá-Zamora e outros personagens da vida pública espanhola.

Nem todos os perseguidos tiveram o mesmo destino, e as trajetórias individuais exigem análise histórica cuidadosa. Houve mortos, presos, exilados e pessoas impedidas de retomar suas atividades profissionais. Em muitos casos, o afastamento do país significou a perda das condições necessárias para reconstruir a vida familiar e social.

A violência também produziu consequências institucionais duradouras. Com a destruição das lojas e a dispersão de seus integrantes, a Maçonaria espanhola perdeu estruturas, arquivos e continuidade organizacional. O exílio tornou-se, para muitos, a única possibilidade de preservar suas convicções e permanecer em atividade.

A repressão deixou, portanto, marcas que ultrapassaram o período imediato da ditadura. Recuperar essa memória significa reconhecer que a intolerância política pode destruir comunidades e comprometer a transmissão de conhecimentos, tradições e experiências entre gerações.

A liberdade não foi restabelecida imediatamente

Francisco Franco morreu em novembro de 1975. A Espanha iniciou então uma transição política que conduziria à democracia constitucional, mas a recuperação das liberdades ocorreu de maneira gradual e enfrentou resistências.

A Maçonaria também precisou lutar pelo reconhecimento jurídico. Conforme relata Bedoya, o pedido de registro da organização foi inicialmente recusado pelas autoridades, obrigando seus representantes a recorrer à Justiça.

Em maio de 1979, a Audiência Nacional espanhola decidiu favoravelmente à inscrição da Maçonaria no registro de associações, permitindo que a instituição recuperasse sua condição legal.

O episódio demonstra que a queda de um regime autoritário não elimina automaticamente os preconceitos, as práticas administrativas discriminatórias ou os obstáculos construídos ao longo de décadas. A restauração das liberdades exige instituições capazes de assegurar direitos sem discriminação e de corrigir injustiças herdadas do passado.

A reconstrução da Maçonaria espanhola também esteve relacionada ao esforço de recuperar sua memória histórica, restabelecer vínculos internacionais e tornar novamente possível o funcionamento regular das lojas.

Memória histórica e responsabilidade democrática

A história da perseguição franquista permite uma reflexão que vai além das fronteiras da Espanha. Sempre que um governo transforma um grupo social em inimigo absoluto, atribuindo-lhe todos os males da nação, abre-se espaço para a desumanização e para a supressão de direitos.

A linguagem conspiratória tem um papel importante nesse processo. Ao apresentar adversários como agentes secretos de uma ameaça permanente, o poder procura justificar medidas excepcionais e afastar a sociedade de uma avaliação racional dos fatos.

No caso da Maçonaria, o mito do suposto conluio judaico-maçônico serviu para alimentar suspeitas, legitimar punições e dificultar o reconhecimento da diversidade de opiniões existentes dentro da própria Ordem.

Preservar essa memória não significa afirmar que todas as instituições ou todos os maçons estejam acima de críticas. Em uma sociedade democrática, organizações e indivíduos podem e devem ser avaliados por suas ações concretas. O que não se pode admitir é que acusações generalizadas substituam provas, que a diferença de pensamento seja tratada como crime ou que a liberdade de associação seja negada por razões ideológicas.

A memória histórica exige distinguir fatos documentados, interpretações dos pesquisadores e relatos que ainda necessitam de confirmação. Essa postura é essencial para que a lembrança das vítimas não seja transformada em nova ferramenta de propaganda.

A lição que permanece

Francisco Franco encerrou sua trajetória política em 1975, mas as consequências de seu regime continuaram a influenciar a sociedade espanhola por muitos anos. A Maçonaria, considerada por sua ditadura uma inimiga a ser eliminada, sobreviveu à repressão e retomou suas atividades legais.

Sua história durante o franquismo é um testemunho dos riscos que surgem quando o poder político tenta controlar o pensamento, restringir a liberdade de consciência e impor uma única interpretação legítima da sociedade.

Para a Maçonaria contemporânea, recordar esse passado é reafirmar a importância da tolerância, do diálogo e do respeito às diferenças. Para a sociedade em geral, é reconhecer que nenhuma organização deve ser condenada por preconceitos coletivos e que a liberdade de pensamento precisa ser protegida mesmo quando as ideias de determinados grupos desagradam aos governantes.

A perseguição sofrida pelos maçons espanhóis deixa uma advertência permanente: regimes autoritários podem destruir templos, dispersar fraternidades e silenciar vozes, mas não conseguem apagar indefinidamente a necessidade humana de liberdade e dignidade.

A memória dos perseguidos não pertence apenas à Maçonaria. Ela faz parte da história da luta pela liberdade de consciência, pelo pluralismo e pela democracia.


Fonte de referência: Juan G. Bedoya, ¿Por qué Franco odió tanto a los masones?, publicado no portal Masonería en Suecia.

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