211 - Maçonaria e Cinema: como as telas construíram o imaginário sobre a Ordem

 


Da Redação

Pesquisa apresentada em Trieste, na Itália, analisa mais de 350 filmes e mostra como a Maçonaria foi retratada entre a história, a propaganda política e a ficção.

Como o cinema contribuiu para construir a imagem pública da Maçonaria? Essa foi a questão central da conferência “Maçonaria e Cinema: hipóteses para uma filmografia”, realizada em 16 de outubro, em Trieste, na Itália, pela Sociedade Internacional de Divulgação Manlio Cecovini para os Estudos Históricos, Sociais e Éticos.

O encontro contou com a participação de Giorgio Sangiorgi, pesquisador e crítico cinematográfico, que apresentou um levantamento de mais de 350 produções, desde os primórdios do cinema até obras contemporâneas. O trabalho busca estabelecer as bases para uma filmografia sistemática sobre as representações da Maçonaria nas telas.

Segundo a classificação apresentada, cerca de 67 filmes têm relação direta com a Maçonaria histórica, enquanto 108 apresentam referências ocasionais ao tema. Outras 170 ou mais produções abordam lendas, sociedades secretas e interpretações esotéricas frequentemente associadas à Ordem, embora nem sempre tenham relação comprovada com sua história.

Entre a história e a ficção

A pesquisa destaca que o cinema não é um registro neutro da realidade. Ao selecionar acontecimentos, construir personagens e utilizar símbolos, os filmes podem influenciar a maneira como o público compreende instituições e fatos históricos.

A simbologia maçônica, os rituais e a discrição das lojas oferecem elementos que podem ser empregados em diferentes gêneros cinematográficos. Dependendo da obra, a Maçonaria aparece relacionada a acontecimentos históricos, sociedades secretas, mistérios, conspirações ou situações humorísticas.

Por isso, os pesquisadores defendem a necessidade de distinguir referências historicamente documentadas de interpretações simbólicas e elementos criados pela imaginação dos roteiristas.

O cinema e o Risorgimento italiano

Um dos pontos abordados foi a relação entre a Maçonaria e o Risorgimento, movimento histórico ligado à unificação da Itália no século XIX.

O percurso apresentado parte do cinema mudo, com destaque para La presa di Roma, de Filoteo Alberini, produção de 1905 que contou com participação maçônica em sua realização, conforme o relato da conferência.

A análise desse período permite investigar como o cinema representou os movimentos patrióticos, os conflitos políticos e a formação da identidade nacional italiana. Também evidencia a importância de examinar cada obra em seu contexto, sem presumir que toda referência à Maçonaria corresponda a uma representação fiel de seu papel histórico.

Propaganda antimaçônica e estereótipos

Outro eixo da pesquisa foi a utilização da imagem da Maçonaria na propaganda política, especialmente durante o fascismo italiano e o regime colaboracionista de Vichy, na França.

Nesses contextos, a representação de grupos considerados inimigos podia servir à disseminação de preconceitos e à construção de narrativas ideológicas. O cinema, por seu alcance e poder de comunicação, tornou-se um meio capaz de reforçar determinadas visões de mundo.

A conferência também examinou as comédias e sátiras, nas quais os rituais, os símbolos e a organização das lojas aparecem, por vezes, como recursos para provocar humor ou ridicularizar personagens.

Embora a sátira possa questionar hierarquias, ambições e comportamentos sociais, ela também pode perpetuar estereótipos quando reduz uma instituição complexa a uma caricatura.

A importância da pesquisa

Para Giorgio Sangiorgi, o levantamento cinematográfico representa um ponto de partida para investigações mais aprofundadas. A proposta é organizar as produções por período, gênero, contexto histórico e função narrativa, permitindo compreender melhor as transformações da imagem pública da Maçonaria.

O estudo demonstra que o cinema não apenas reproduz ideias existentes na sociedade: ele também pode contribuir para consolidá-las. Imagens repetidas ao longo do tempo podem influenciar a percepção coletiva, mesmo quando se baseiam em informações incompletas ou interpretações distorcidas.

A principal contribuição da pesquisa está, portanto, no convite à análise crítica. Compreender como a Maçonaria aparece no cinema exige separar a liberdade criativa da ficção dos fatos históricos, sem excluir a possibilidade de crítica ou sátira.

Ao investigar mais de 350 produções, o trabalho apresentado em Trieste abre caminho para uma compreensão mais ampla da relação entre Maçonaria, cultura popular, política e linguagem audiovisual.

Fonte: relato da conferência “Massoneria e Cinema: ipotesi per una filmografia”, realizada em Trieste, Itália, em 16 de outubro, com apresentação do pesquisador e crítico cinematográfico Giorgio Sangiorgi.




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