211 - Quando a Intolerância Sobe ao Trono, a Fraternidade Desmorona

 

Da Redação

O templo está de pé. Os rituais continuam. Os discursos exaltam a fraternidade. Mas, por trás das colunas, algo preocupante acontece: Irmãos que deveriam caminhar juntos transformam divergências em inimizades.

Discordar virou ofensa. Pensar diferente passou a despertar suspeitas. E a liberdade de consciência, tantas vezes proclamada como um dos pilares da Maçonaria, parece incomodar justamente aqueles que mais deveriam defendê-la.

O problema não é a divergência. É a incapacidade de conviver com ela.

A Maçonaria reúne homens livres, não indivíduos obrigados a pensar da mesma maneira. Seu propósito não é fabricar unanimidades, mas oferecer condições para o aperfeiçoamento humano por meio do estudo, do diálogo e do exercício da tolerância.

Quando um Irmão é julgado menos pelo seu caráter do que pelas ideias que defende, alguma coisa está fora do lugar. Quando a lealdade a um grupo se torna mais importante do que os princípios da Ordem, a busca pela verdade cede espaço à disputa por poder e influência.

A fraternidade, então, deixa de ser um compromisso e vira uma conveniência: somos Irmãos enquanto concordamos; quando discordamos, tornamo-nos adversários.

Isso não é fraternidade. É apenas afinidade disfarçada de virtude.

Quem está realmente no comando?

Imagine um trono ocupado pela intolerância. Ao redor, homens ajoelhados, convencidos de que estão defendendo seus princípios.

A imagem provoca uma pergunta incômoda: a intolerância depende apenas de quem a pratica ou também daqueles que a justificam?

Ela cresce quando alguém aplaude a exclusão de um Irmão porque ele pensa diferente. Ganha força quando o silêncio protege a injustiça e quando atitudes desrespeitosas são toleradas porque favorecem os interesses do próprio grupo.

O mais perigoso é que ninguém se considera intolerante. A intolerância está sempre no outro. A nossa, quando existe, recebe nomes mais nobres: convicção, coragem, fidelidade ou defesa de valores.

Assim, cada um acredita estar protegendo a Loja de seus adversários, sem perceber que pode estar contribuindo para destruí-la por dentro.

A intolerância não precisa conquistar o templo à força quando encontra quem lhe ofereça o trono.

Fraternidade não é torcida organizada

Uma Loja maçônica não pode funcionar como uma torcida organizada, dividida entre aliados e inimigos, na qual a opinião do grupo vale mais do que a consciência individual.

O Maçom não precisa concordar com seu Irmão. Precisa respeitá-lo.

Tolerar não significa aceitar tudo, abandonar convicções ou silenciar diante de injustiças. Significa compreender que a divergência, quando conduzida com respeito, não representa necessariamente uma ameaça. Pode ser justamente o caminho para ampliar horizontes e corrigir equívocos.

A liberdade de consciência só tem valor quando também protege as ideias de que discordamos.

Caso contrário, defendemos a liberdade apenas para nós mesmos — e isso não é liberdade. É privilégio.

O verdadeiro teste da fraternidade não acontece quando estamos cercados por aqueles que pensam como nós. Acontece quando precisamos estender a mão a alguém cujas ideias nos contrariam.

É fácil falar de união entre semelhantes. Difícil é preservar o respeito diante das diferenças.

Antes de acusar, examine a própria consciência

A Maçonaria ensina o aperfeiçoamento do indivíduo. Mas como aperfeiçoar a si mesmo quando toda a energia é empregada em apontar os defeitos dos outros?

Antes de condenar a intolerância alheia, cada um deveria responder a algumas perguntas:

Defendo a liberdade de consciência mesmo quando discordam de mim?

Consigo respeitar um Irmão sem exigir que ele compartilhe minhas opiniões?

Condeno atitudes injustas independentemente de quem seja o responsável?

Contribuo para o diálogo ou alimento divisões?

Essas perguntas não exigem respostas públicas. Exigem sinceridade.

O trabalho maçônico perde parte de seu sentido quando os símbolos são compreendidos, mas os princípios não são praticados; quando se fala em fraternidade dentro do templo, mas se cultiva hostilidade fora dele.

Não basta conhecer os instrumentos do construtor. É preciso saber usá-los para corrigir as próprias imperfeições.

O templo começa a ruir por dentro

Uma Loja não se enfraquece apenas por problemas administrativos ou pela ausência de novos membros. Também se fragiliza quando seus integrantes perdem a capacidade de dialogar, quando a suspeita substitui a confiança e quando a divergência passa a ser tratada como deslealdade.

As paredes podem permanecer intactas. Os aventais podem continuar sendo vestidos. Os rituais podem ser executados com perfeição.

Mas nenhuma formalidade substitui o respeito. Nenhum discurso compensa a ausência de fraternidade.

Reconstruir o templo exige mais do que preservar suas estruturas: exige recuperar o compromisso com os valores que justificam sua existência.

E essa reconstrução começa quando cada Irmão deixa de perguntar apenas quem está destruindo a Loja e passa a examinar a própria contribuição para o problema.

Afinal, o que ameaça mais uma Loja: a intolerância que ocupa o trono ou os Irmãos que se ajoelham diante dela?

E você: está combatendo a intolerância ou apenas aquela que contraria suas próprias convicções?

Talvez o primeiro passo para reconstruir o templo seja abandonar a certeza de que a culpa está sempre no outro.

Porque, quando a intolerância governa e a fraternidade se cala, o templo pode continuar de pé — mas seus princípios já começaram a desmoronar.

 

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